estampas japonesas

As janelas abriam para o jardim, mas as cortinas estavam totalmente imóveis, porque não tinha vento nem corrente de ar. Era uma daquelas chuvas que caem pesadas e retas, um dia tranquilo – uma chuva muito densa e apertada, como numa estampa japonesa.

Trechinho de “Teu obituário, bem escrito”, de Conrad Aiken. A fala é da personagem inspirada em Katherine Mansfield. Passei horas admirando as estampas japonesas (Ukiyo-e) e procurando algumas que tivessem essa chuva “densa e apertada”.

 

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Chuva na ponte Izumi – Takahashi Hiroaki (Shotei), 1871-1945
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Chuva repentina em Atake(ponte Ohashi) – Utagawa Hiroshige, 1797-1858

 

Ler Mansfield: aprendizado de tradução

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Fui convidado para abrir uma sequência de mesas redondas aqui em Banff — dia sim, dia não, dois tradutores falam do seu trabalho e apresentam dificuldades, a partir disso discutimos aspectos dos mais variados. Como eu seria o primeiro, os organizadores me pediram para falar sobre uma série de coisas — o que é ser tradutor, como funciona um pouco do mercado no Brasil, e sobre o meu projeto de tradução. Fiz uma apresentação das editoras para as quais trabalho, e em seguida apresentei mais ou menos o que reproduzo nesse esboço de texto — foram apenas dez minutos, e os tópicos levantados foram aprofundados nas perguntas e respostas no final, e voltarão a ser discutidos nas próximas mesas redondas.

 

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LER MANSFIELD: APRENDIZADO DE TRADUÇÃO

Primeiramente, obrigado Pedro Serrano, por me receber aqui e receber todos nós. Esse programa é fundamental e tem sido uma experiência incrível. Obrigado Hugh Hazelton, por nos orientar, Paul Gagné, Carmen Leñero e Katherine Silver, que ainda não está aqui, mas chega semana que vem. Obrigado Devyani Saltzman e toda equipe, Meg, Naomi, Cate – perdoem-me se me esqueci de alguém.

Eu costumo dizer que sempre tive vontade de ser tradutor, desde que me entendo por gente. Quando eu era pequeno e as pessoas perguntavam para as crianças: “O que você quer ser quando crescer?”, as crianças diziam: “Ah, eu quero ser médico, eu quero ser astronauta, eu quero ser professora, eu quero ser um super-herói”. Eu dizia: “Eu quero ser carteiro”.

Nasci numa cidade pequena, não tão pequena quanto Banff, talvez do tamanho de Red Deer, e fui ciado num bairro na cidade de Niterói, no Rio de Janeiro, pequeno o suficiente para que todas as pessoas se conhecessem. Eu morava numa vila de casas todas grudadas uma na outra, e o carteiro sempre chegava na hora em que eu saía para a escola. Eu me lembro de sempre parar na entrada da vila para vê-lo entregar as correspondências, e ficava fascinado pela reação das pessoas ao receber a carta de algum parente, um postal de um lugar distante, até mesmo uma conta para pagar. E aquilo era o que eu queria fazer: ser responsável por carregar uma mensagem e entregá-la. Mas os carteiros também lutam para entregar uma mensagem – precisam trabalhar debaixo do sol, da chuva, caminhando horas por dia. Faz parte do processo. O que importava era entregar a mensagem, fosse qual fosse.

Depois de me formar em Filosofia e começar a lecionar para adolescentes, eu também trabalhei como DJ de música eletrônica. A tradução apareceu como profissão no meio dessas duas coisas, foi abrindo caminho e deixou de ser apenas um hobby para se tornar minha principal atividade – na verdade, minha única atividade durante anos. O que eu não sabia, na época, é que a essência do que era “ser carteiro” estava também manifestada, ainda que de forma latente, na minha profissão de professor ou de DJ. Ser DJ, ser professor, mas, acima de tudo, ser tradutor, é ser aquele carteiro lá da minha infância. A diferença é que em vez de apenas entregar as cartas, nós as abrimos e as lemos todas! Quando entendi isso, num estalo psicanalítico, abri um sorriso, emocionado, e disse: “agora tudo faz sentido. Nasci pra isso.”

Existe uma coisa que considero importantíssima na minha formação como tradutor, que é a bagagem acadêmica e teórica. Quando entrei no curso de pós-graduação em tradução na UFMG, notei no primeiro dia que traduzir era algo completamente diferente do que eu pensava que fosse. Traduzir não era a atividade feita palavra por palavra, nem muito menos baseada numa consulta a dicionários – e o imaginário popular pensa assim como eu pensava no início. Percebi nesse dia que não traduzimos palavras, mas culturas. E nisso consiste a beleza da tradução: trazer para a nossa língua uma cultura estrangeira, como um beija-flor que suga o néctar de uma flor e carrega consigo o pólen para fecundar. Por isso, o tradutor que sou hoje eu devo inicialmente ao curso de formação que fiz. Mas também devo a toda a diversidade cultural e artística que sempre procurei na vida – ouvir de tudo, ler de tudo, me inteirar de tudo – no Brasil temos uma expressão peculiar para isso, que é “ler até bula de remédio”. E em terceiro lugar, eu diria que devo ao importantíssimo papel dos preparadores, revisores e editores – um privilégio que, pelo que vejo dos colegas, não existe em todos os mercados. Quando entregamos a tradução para a editora, ela passa por um processo de cotejo, em que o preparador sugere novas soluções, procura dar mais fluidez ao texto em partes truncadas etc. Essa leitura cuidadosa é fundamental para que o tradutor, tão solitário, tenha um feedback do que está fazendo, o que o ajuda a entender os próprios processos mentais de tomada de decisões.

No Brasil, mais ou menos 65% dos livros de literatura são traduções. Contraditoriamente ou não, a lei de direitos autorais no Brasil declara que todo tradutor é considerado coautor. O nome do tradutor, então, precisa constar em todo o material de divulgação, releases, ficha catalográfica, e teoricamente deveríamos receber os direitos autorais, assim como os autores originais. Não é assim que funciona na pratica, no entanto. Receber direitos autorais, num mercado de altos e baixos, muitas vezes inviabiliza lançamentos. Então a prática geral é que os tradutores cedam os direitos autorais para as editoras e recebam por obra feita, ou por lauda traduzida. A mesma prática acontece nos Estados Unidos e na Itália, pelo que sei. Algumas editoras fazem acordo com os tradutores quando se trata de obras em domínio público, cujos autores não receberão direitos autorais – esse pagamento, então, vai para os tradutores. Mas é prática incomum. E vale frisar também: estou fazendo aqui um resumo em linhas gerais de questões de mercado e tradução, dizendo apenas que nós fazemos desse jeito, e não que esse jeito é melhor ou pior, certo ou errado.

Vejam bem, eu vivo de tradução editorial. Não é difícil viver de tradução no Brasil, porque há muitas obras para traduzir. Mas também não é fácil, pois significa que temos de traduzir muito, todos os dias, oito, dez horas por dia. E, é claro, é quase impossível escolher o que queremos traduzir. Somos contratados pelas editoras, que entram em contato conosco e nos oferecem trabalho. É claro que um tradutor com alguma experiência será mais procurado para traduzir determinado tipo de obra – como no meu caso, basicamente filosofia, crítica e literatura. Podemos escolher entre traduzir um ou outro livro que nos é oferecido, é claro, mas é difícil propor uma tradução. Não é impossível, mas é difícil. Tive a sorte de poder escolher traduzir a Katherine Mansfield e ser acolhido por uma excelente casa editorial – o Grupo Autêntica. Então, vamos à Mansfield.

Katherine Mansfield foi uma escritora modernista, conhecida principalmente por seus contos, embora também tenha escrito poemas e deixado um romance inacabado. Nasceu em 1888 em Wellington, Nova Zelândia, e se mudou para a Grã-Bretanha em 1908, onde passou grande parte de sua vida, e morreu em 1923 na França. É considerada uma verdadeira mestra do conto, e desenvolveu um estilo de prosa único, com camadas e camadas de poesia. Influenciou o desenvolvimento de muitos escritores do mundo todo, no Brasil inclusive, e contribuiu para o estabelecimento do conto como uma forma de literatura.

Seu primeiro livro, Numa pensão alemã, que vou traduzir aqui, foi publicado em 1911, quando ela tinha apenas 23 anos. Consiste numa seleta de textos publicados anteriormente numa revista literária chamada New Age, e não havia praticamente ninguém escrevendo contos como ela naquela época. Seu próximo livro, Bliss, que a consagrou como escritora, só seria publicado nove anos depois.

Mansfield não recebeu nenhum tostão pela publicação de Numa pensão alemã. Embora o livro tenha feito sucesso e atingido três edições, a editora lhe deu o calote e abriu falência. Mansfield não se importou tanto – é o que nos diz John Murry numa nota introdutória a uma edição da Penguin de 1979 – porque, depois de alguns anos, tomou aversão pelo livro por considerá-lo juvenil e imaturo demais. Mas nele já estavam presentes todos os elementos que ela exploraria na sua carreira de escritora: uma escrita sintética, direta, com frases muito precisas e uma forma muito peculiar de brincar com o discurso direto e indireto. Uma escrita idiossincrática, como disse Hugh Hazelton.

Virginia Woolf dizia sobre Mansfield: “I was jealous of her writing. The only writing I have ever been jealous of.” Vejamos:

“They were walking in a leisurely fashion up the stairs. They had been sent to bed as it was past nine o’clock, but that was a mere detail in their minds. There are three girls in the family, the eldest, Phoebe, is just sixteen. Phoebe is not what could be called a truly pretty girl, but she had a wealth of beautiful nut brown hair that fell in one thick plait down her back. Next in age is Kitty or Edith, if you wish to be exact. She is what girls call, a ‘real good sort’, and here the writer agrees, she is one girl in twenty. And last comes Bessie, who is the one beauty in the family, though is herself entirely unconscious of the fact. Lately, she has developed a tendency to appear masculine, to the great amusement of the rest of the family. The ages of these two are fourteen and thirteen.”

Ela escreveu isso quando tinha onze anos. É uma reprodução exata do manuscrito, que só foi publicado recentemente.

Ler Mansfield não é só um aprendizado de escrita, mas também de tradução. Em seu conto A married man’s Story, ela diz:

“Why is it so difficult to write simply — and not only simply but sotto voce. That is how I long to write. No fine effects — no bravura. But just the plain truth, as only a liar can tell it.”

Não é maravilhoso? “The plain truth, as only a liar can tell it.” Nós, tradutores, somos tão mentirosos que a única coisa que podemos dizer é a verdade.

Numa carta para Richard Murry, irmão de seu marido, ela escreve – e devo esses trechos à Ana Cristina César, que tem uma excelente tradução de Bliss para o português e usou esses trechos como epígrafe:

“Have I conveyed what I mean to even? You see I too have a passion for technique. I have a passion for making the thing into a whole if you know what I mean. Out of technique is born real style, I believe. There are no short cuts.”

Quando Mansfield fala sobre técnica, ela não diz de um jeito engessado ou endurecido de fazer as coisas; ela está dizendo que sabe exatamente o que faz na sua escrita. É claro que ela escreveu muitas vezes seguindo um fluxo de pensamento, como Virginia, mas também passava tempo demais escrevendo e rescrevendo até atingir o efeito que queria. Isso também é tradução. Vejam, em outra carta a Richard Murry:

“In the way a thing is made – it may be a tree or a woman or a gazelle or a dish of fruit – you get your inspiration. This sounds a bit too simple when it is written down. I mean something though. Its a very queer thing how craft comes into writing. I mean down to details. Par exemple. In Miss Brill (which is a short story of The Garden Party) I chose not only the length of every sentence, but even the sound of every sentence – I chose the rise and fall of every paragraph to fit her – and to fit her on that day at that very moment. After I’d written it I read it aloud – numbers of times – just as one would play over a musical composition, trying to get it nearer and nearer to the expression of Miss Brill – until it fitted her.”

Nós, tradutores, precisamos escrever e reescrever, como se usássemos um palimpsesto. Ao fazer isso, temos muito mais chance de dizer a essência do texto original – nem mais, nem menos, mas o essencial. Ou, pelo menos, temos uma chance maior de chegar mais perto desse objetivo.

Banff Centre – Mansfield

Conforme notícia publicada no Estadão em 30 de abril de 2016, participo do programa de residência de tradutores do Banff International Literary Translation Centre, no Canadá, em junho. Lá finalizo o primeiro volume de contos da Mansfield — depois de tantos planos, vamos lançar os livros na sequência lançada por ela e pelo marido após sua morte.

mansfield estadao

Manoel e Catarina

Em 1947 Manoel de Barros escreveu “Poesias”, seu terceiro livro publicado. É nele que está sua homenagem a Mansfield.

CONTINHO À MANEIRA DE KATHARINE MANSFIELD*

Perdera mais aquele seu dia encantador que, bem usado, poderia, quem sabe? transformar-se em alguma coisa útil ou de cristal.
Perdera-o entre sonhos e perguntas.
E agora a noite era dos sapos.
E sua boca cheia quase foi entrando para o reino vegetal, escorrendo seiva
E entoando sumarentos beijos. Ela desconfiava.
Os ramos sempre tratavam de adormecer os seus pássaros, friorentos, agasalhando-os.
Dava vontade de saltar pelos muros do quintal onde estava
Ganhar a rua e errar pelos cantos, entre pessoas…
Os braços crescendo, espalhando-se, lavavam-na toda de enormes silêncios.
Seus pés na areia fofa dormiriam… Como raízes?
Sombras acordavam nas trepadeiras.
Se os pensamentos tivessem voz despertariam com certeza os galos empoleirados nas cercas
E as borboletas no pé de tamarindo, e todos os patinhos que estavam dormindo debaixo das árvores.
Lúcia passeia amorosamente seus dedos pelos troncos revelhos — e sobe.
Agora seu quarto parece impregnar-se de um cheiro bom de mato…

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*Manoel grafa Katharine em vez de Katherine.

Enna Blake – a primeira história

“Oh, mãe, ainda está chovendo e você diz que não posso sair”. Era uma menina quem falava; parecia ter uns dez anos. Estava sentada numa sala bem mobiliada e olhava para fora de uma janela larga. “Não, Enna”, disse sua mãe, “você está resfriada e não quero que piore, querida”. Nesse momento soou o gongo anunciando o almoço e elas foram para a sala de jantar. No meio da refeição a criada chegou com as cartas; uma para Enna e outra para a sra. Blake. Como tinha parado de chover depois do almoço, elas foram para fora, onde Enna se sentou sozinha num canto embaixo da sombra e começou a ler a carta. Era um bilhete de Lucy Brown convidando Enna e sua mãe para passarem algumas semanas de férias com ela na sua casa em Torquay. Enna ficou encantada e correu para pedir à mãe.

Foi então que na manhã seguinte elas entraram no trem que as levaria até Torquay. Quando Enna se cansou de olhar pela janela, encostou-se no assento e não tomou conhecimento de mais nada até ouvir o cabineiro gritar “Torquay”.

Lucy estava na plataforma para recebê-las. “Estou tão feliz que vocês vieram”, disse ela, “mamãe falou que talvez a música a impedisse de vir”. Elas fizeram uma viagem adorável até Sunny Glen; eram nove horas da noite quando chegaram e foram aconselhadas a ir logo para cama, o que Enna fez de bom grado.

O dia seguinte foi bem agradável. A sra. Brown sugeriu que elas fossem ver as samambaias. Então começaram logo depois do café da manhã. “Parece o dia ideal para se divertir”, disse Lucy enquanto subiam a colina. “Sim”, respondeu Enna, “hoje está muito mais agradável aqui do que em Londres”. Por volta do meio-dia as duas meninas sentaram-se sobre um tronco e comeram. “Acho que seria ótimo pegar alguns musgos”, disse Enna; então saíram caminhando. As meninas tiveram um dia bem feliz e colheram muitas samambaias bonitas e alguns musgos lindos. Naquela noite Enna disse que aquele tinha sido o dia mais agradável que ela teve no campo. No dia seguinte choveu muito, então elas ficaram dentro de casa, mas fizeram bolos, pãezinhos, biscoitos de gengibre e outras guloseimas para uma festa que ela planejava dar no dia seguinte. Por volta de oito horas da noite, chegou uma caixa endereçada a Lucy pelas mãos de seu tio. Ao abri-la, encontrou um gatinho encantador; era todo branco, exceto por uma mancha preta no pescoço. Lucy ficou maravilhada e brincou com ele o resto da noite.

O terceiro dia da estada de Enna foi muito aprazível. As meninas saíram para passear de manhã e visitaram algumas amiguinhas de Lucy durante a tarde. Enquanto tomavam chá um cavalheiro chegou para visitar a sra. Brown e as divertiram pelo resto da noite. E na verdade as semanas passaram voando muito rápido, mas quando chegaram ao fim, Enna concluiu que foram as férias mais felizes que já teve.


Em maio de 1898, Kathleen Beauchamp, nome de nascimento de Katherine Mansfield, foi estudar com as irmãs mais velhas no Wellington Girls’ High School, em Wellington, Nova Zelândia. Pouco tempo depois publicou sua primeira história, “Enna Blake”, por “Kathleen Beauchamp, nove anos de idade”, no jornal da escola, com um comentário do editor: “Esta história, escrita por uma aluna que acaba de entrar na escola, é promessa de grande mérito.”

Mansfield estudou nesta escola de maio de 1898 a maio de 1899. Nas Obras Completas (Edinburgh Edition) consta que seus pais passaram um bom período na Inglaterra em 1898, o que talvez explique parte do contexto da história.

Incrível perceber a ingenuidade e a clareza do texto de Mansfield, a forma como narra os eventos passados, a voz que dá às personagens e principalmente a concisão — característica marcante de seus contos.